de olhos fechados vejo estrelas. uma noite, um banho, bebendo água e comendo a larica que devia ser da madrugada. ainda era cedo, coisas e coisas aconteceram naquela noite, mais pra mim só estava começando a noite. umas 20h era ainda. eu havia comprado um vinho branco e queijos caros. eu que adoro uma noite apaixonada. a noite me seduz de um jeito que esqueço do que fiz durante o dia. eu já havia tomado banho, só estávamos nós duas no apartamento, já de banho tomado. eu costumo por um short pra dormir, short esse que tem vários nozinhos para que tentem tirá-los às pressas na madrugada. eu adoro a noite e a madrugada pra transar, e loucas de paixão o short no meu corpo desliza com tudo!
nessa noite eu não botei o short, porque sei que ela dorme pelada, e já que estávamos só nós duas no apartamento eu me permiti abrir o vinho nua. eu estava criando um clima, eu queria um romance a noite, eu queria fazer amor, eu queria um sexo intenso, eu queria aproveitar o apartamento só para nós duas e ouvir ela gemer como um lobo, me morder como um lobo, susurrar no meu ouvido num bilíngue que me deixa doida. eu queria possuí-la, eu queria uma noite intensa como o azul da cor do céu selvagem à noite!
abri o vinho e trouxe as duas taças pra cabeceira da cama, cortei uns queijos e ainda achei um chocolate na geladeira, parecia tudo favorável… o creme perfeito no meu corpo e a certeza de que eu iria foder gostoso. sentei na cama e nada dela sair do banho, eu já havia tomado duas taças de vinho, já fazia umas meia hora e nada dela sair do banho fiquei preocupada e da cama eu perguntei: amor está tudo bem? e ela respondeu: sim amor, já vou sair do banho! então enchi minha terceira taça de vinho e me mantive sentada na cama evitando atender as chamadas do zap. eu olhava pras paredes do quarto com um pensamento de que nunca havia percebido o tom cinza daquela parede. por um instante tive devaneios, pensamentos intensos de como aquele cinza mostrava um filme, eu olhava pra parede e assistia um filme em preto e branco, o filme tinha uns chiados eu não entendia as falas.
eu via uns pés e pernas como os de duas pessoas dançando, os rostos apareciam como se estivessem três pessoas no filme se beijando, eu não sentia tesão mas também não queria desviar o olhar. eu estava surpresa com minha imaginação na parede cinza, era eu escrevendo aquele roteiro, fiquei tão vidrada na minha imaginação que até esqueci da gata no banho. então daí eu perguntei de novo: amor tudo bem? e ela respondeu: tudo! eu estou na cozinha, você está bem? e eu respondi: estou! e ela veio chegando no quarto e perguntou de novo: você está bem, meu bem? eu sair do banho há uns dez minutos, vim aqui no quarto, me sequei e você estava olhando para a parede como se tivesse visto algo, me disse rindo. eu respondi que tive um devaneio e que assisti a um filme na parede cinza. e ela perguntou: que tipo de filme você assistia que nem me viu entrar no quarto? eu me senti invisível! eu contei e ela riu dizendo pra eu parar de beber vinho que já estava tarde, e eu respondi: mais amor eu estava te esperando pra tomar um vinho comigo na cama, comer uns queijinhos, fazer um amorzinho safado do jeito que nós gosta! e ela respondeu: já guardei o queijo e o vinho e você nem viu! eu falei: poxa amor! e ela falou: eu fiz uma surpresa pra você, por isso demorei no banho hoje, você quer a surpresa amor? e eu logo respondi: o quê? então ela parou de frente pra cama e pediu pra eu fechar os olhos e abrir a mão esticada para frente, e então eu fiz, chateada, mais fiz! e ela dizendo: não abre os olhos amor vou conduzir sua mão no meu corpo… então eu cheguei pra beira da cama e estiquei o braços, ela segurou meu braço e começou a passar minha mão no corpo dela pedindo que eu adivinhasse a surpresa.
eu de olhos fechados sentindo o corpo dela na palma da minha mão, ela sussurrando feito uma safada pedindo que eu escrevesse um roteiro no corpo dela. eu falei: tá brincando comigo amor?.. e ela respondeu: tá gostando? sabe aonde está a sua mão agora? eu sabia mas respondia que não, e ela então me pediu pra eu sentar na beira da cama, sem abrir os olhos e continuar com os braços esticados, que assim ela usaria as minhas duas mãos em seu corpo. aí eu já não estava mais chateada e a abracei num encaixe gostoso com ela em pé de frente pra mim. enquanto eu a abraçava ela esfregava a barriga no meu rosto e dizia: hum… vai ser gostoso se você descobrir a surpresa com a boca… se você descobrir com a boca te dou um doce, sobe com as mãos no meu corpo, fica de pé se quiser mais… descubra a surpresa que fiz pra você pensar que eu sou a parede cinza e escreva em mim o seu melhor roteiro intuitivo… use as além da mãos, o seu corpo no meu, mais não abra os olhos… eu sei que você conhece cada detalhe do meu corpo. então ela usava minhas mãos e dedos dentro e fora dela.
eu sentia meus dedos na buceta dela, eu sentia meus dedos um por um dentro dela, ela os enfiava na boca e chupava um por um, dançando a língua neles e me deixando sem fôlego, como se eu fosse e voltasse dentro dela, num preto e branco quase surda. eu, de olhos fechados num ataque de almas e gemidos, ela me dominando e eu sentindo o coração dela pousar em meus dedos. não, não era eu dominando, eu estava rendida com meu corpo relaxado, flexível, deixando ela se encaixar em mim. não era eu escrevendo aquele roteiro, era ela em cena na melhor performance pra mim, era ela no clima tão colorido que mesmo eu, de olhos fechados, sentia atravessando um arco-íris com um fundo de céu cinza. era ela me surpreendo, era ela me possuindo, era ela com a buceta na minha boca e levando minhas mãos em seus peitos, perguntado se eu queria descobrir a surpresa. era ela selvagem como o azul do céu, dançando em meu corpo feito tempestade, pedindo pra eu abrir os olhos sem ter medo da chuva, gritando: vou gozar, amor!
DEIZE TIGRONA é multiartista carioca e uma das principais responsáveis pela cultura Funk no Brasil.